A conta do carbono chega antes do mercado

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) foi introduzido como uma ferramenta de precificação do carbono que, diferentemente de modelos internacionais, exige que as empresas já registrem e governem seus dados de emissões antes mesmo que o mercado de carbono esteja totalmente estruturado. Essa abordagem “pre‑market” visa garantir que a base de dados seja confiável, evitando distorções que poderiam comprometer a integridade do regime de créditos de carbono. O portal Metalmecânica destaca que o SBCE representa uma mudança de paradigma na forma como a indústria brasileira gerencia seus impactos ambientais.
Para que uma empresa participe do SBCE, é necessário mapear todas as emissões de gases de efeito estufa (GEE) nos três scopes – Scope 1 (emissões diretas), Scope 2 (energia comprada) e Scope 3 (emissões indiretas). Isso implica a implementação de sistemas robustos de coleta, verificação e reporte de dados, além da adoção de padrões internacionais como ISO 14064 ou GHG Protocol. O regime impõe auditorias independentes e a criação de um “data governance” que assegure a rastreabilidade e a integridade das informações, antes mesmo de qualquer precificação de carbono ocorrer.
Minas Gerais, estado com forte presença de siderurgia, mineração e metalurgia, será um dos principais focos de aplicação do SBCE. Segundo dados do Ministério da Economia, mais de 3.200 empresas de mineração e 1.200 de siderurgia operam no estado, gerando cerca de 12 % das emissões globais do país. A exigência de governança de dados implica investimentos em tecnologia da informação, treinamento de pessoal e, em alguns casos, reestruturação de processos industriais para reduzir emissões e melhorar a rastreabilidade.
O impacto econômico desse regime pode ser ambíguo. Por um lado, os custos iniciais de conformidade – aquisição de software, contratação de consultorias e treinamento – podem representar entre 0,5 % e 1,5 % do faturamento anual das empresas de médio porte. Por outro, a precificação antecipada do carbono abre oportunidades de monetização por meio da venda de créditos de carbono, especialmente em mercados futuros que se projetam para valorizar entre R$ 30 e R$ 80 por tonelada de CO₂ equivalente. Empresas que já possuem processos de redução de emissões podem se posicionar como fornecedores de créditos, gerando receita adicional e fortalecendo sua competitividade.
Os especialistas em energia e automação apontam que o SBCE também pode impulsionar a adoção de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS) e de energias renováveis. A necessidade de dados confiáveis estimula a modernização de sistemas de medição e controle, criando sinergia com investimentos em automação industrial. No horizonte de 2030, o mercado brasileiro de créditos de carbono pode atingir R$ 12 bi em volume de transações, segundo projeções do Banco Central, o que reforça a importância de uma governança robusta desde o início.
Para que as empresas brasileiras se preparem adequadamente, recomenda-se a criação de comitês internos de sustentabilidade, a implementação de plataformas de gestão de emissões e o estabelecimento de parcerias com certificadoras internacionais. O SBCE, ao colocar a governança de dados no epicentro da estratégia de carbono, oferece uma estrutura que, embora desafiadora, pode posicionar as indústrias metalúrgica e siderúrgica como líderes em sustentabilidade no cenário global.
Fonte original
DDiariodocomercio Br
