Agro brasileiro busca bloquear tarifa de Trump sobre carne e etanol

O governo brasileiro, por meio da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ) e de representantes do setor agroindustrial, lançou nesta segunda‑feira uma campanha diplomática para impedir a aplicação da nova tarifa de importação proposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que incide sobre carne bovina, suína, de frango e etanol. A medida, anunciada na Casa Branca como parte de um pacote de retaliações comerciais contra a União Europeia, tem o potencial de elevar os custos de exportação em até 25% e reduzir a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados norte‑americanos, que já representam cerca de 15% das exportações agrícolas do país.
Para a indústria metalmecânica, o impacto econômico pode ser ainda mais significativo. O setor responde por aproximadamente 12% do PIB brasileiro e emprega 1,2 milhão de trabalhadores diretos, além de uma cadeia de fornecedores que inclui siderúrgicas, fabricantes de componentes automotivos, e empresas de automação industrial. A imposição de tarifas mais altas elevará os preços dos insumos agrícolas, reduzindo a demanda por máquinas de colheita, tratores, sistemas de irrigação e equipamentos de processamento que, em 2023, movimentaram mais de R$ 45 bilhões em vendas internas. Analistas da B3 estimam que a retração nas exportações agrícolas poderia cortar cerca de R$ 8 bilhões do faturamento do segmento metalúrgico nos próximos dois anos.
Além do efeito direto nas vendas, a tarifa‑caco poderá desencadear um efeito cascata nas cadeias de suprimentos de energia e mineração. O etanol, principal biocombustível do país, alimenta usinas de geração de energia que, por sua vez, abastecem fábricas de aço e de produtos químicos. Uma queda de 10% nas exportações de etanol poderia reduzir a demanda por energia elétrica em até 3,5 GW, afetando a geração de energia renovável e, consequentemente, os contratos de fornecimento de energia para grandes siderúrgicas como a Gerdau e a CSN.
Do ponto de vista macroeconômico, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta que a balança comercial agrícola possa registrar um déficit de US$ 2,3 bilhões em 2024, caso a tarifa seja efetivada. Esse cenário contrasta com a expectativa de superávit de US$ 7,5 bilhões prevista antes da proposta de Trump. O déficit adicional pressionaria o real, que já registra volatilidade diante das tensões geopolíticas, e poderia elevar a taxa de juros Selic em 0,5 ponto percentual, impactando o custo de capital para investimentos em automação e digitalização de fábricas.
Em resposta, a Confederação da Indústria Brasileira (CNI) e a ABIMAQ organizaram uma série de reuniões bilaterais com representantes do Departamento de Comércio dos EUA, buscando negociar exceções setoriais e a criação de cotas tarifárias temporárias. O governo federal, por sua vez, sinalizou a possibilidade de abrir um mecanismo de compensação fiscal, semelhante ao que foi feito em 2018 durante a disputa da tarifa sobre aço e alumínio, o que poderia mitigar parte dos custos adicionais para os exportadores.
Especialistas do setor apontam que, no médio prazo, a adoção de tecnologias de automação avançada – como robótica colaborativa e sistemas de controle preditivo – será crucial para manter a competitividade frente ao aumento de custos. Investimentos em digital twins e manutenção preditiva podem reduzir o custo total de propriedade (TCO) das máquinas agrícolas em até 15%, segundo estudo da McKinsey. Além disso, a diversificação de mercados, com foco em países da Ásia e da África, está sendo intensificada para diluir a dependência do mercado norte‑americano.
Enquanto as negociações continuam, a indústria metalmecânica brasileira permanece em alerta. A combinação de tarifas mais altas, pressão cambial e possíveis ajustes na política monetária cria um cenário de incerteza que exigirá respostas rápidas e estratégicas. O sucesso das medidas de lobby e a capacidade de adaptação tecnológica serão determinantes para preservar os 45 bilhões de reais de receita anual do setor e garantir a continuidade da cadeia produtiva que sustenta grande parte da economia nacional.
Fonte original
EExame
