Aneel prevê aumento de 8,6% na conta de luz em 2026

A agência reguladora do setor elétrico (Aneel) divulgou nesta terça‑feira a projeção de que a conta de luz no Brasil sofrerá um acréscimo de 8,6% em 2026, superando a expectativa de inflação média nos próximos cinco anos. A estimativa, baseada em modelos que consideram a expansão da geração renovável, a necessidade de investimentos em transmissão e a atualização dos custos de combustíveis fósseis, gera alerta para fabricantes, siderúrgicas e usinas de mineração que dependem de energia elétrica de forma intensiva. Para o segmento metalúrgico, cujos processos de fundição, laminação e usinagem costumam representar até 40% do custo total de produção, o impacto pode reverberar tanto nos preços finais dos produtos quanto na competitividade internacional.
O cálculo da Aneel incorpora o chamado “custo de operação de longo prazo” (COLP), que inclui a remuneração de novos parques eólicos e solares, a modernização de linhas de transmissão e a desativação de usinas termelétricas antigas. Segundo o relatório, a parcela de energia renovável deve alcançar 42% da matriz nacional até 2026, impulsionada por leilões de energia limpa e acordos de compra de energia (PPAs) firmados por grandes conglomerados industriais. Contudo, a transição exige capital significativo: a Aneel estima que sejam necessários R$ 250 bilhões em investimentos até 2027, o que se traduz em custos operacionais mais altos que, em parte, serão repassados ao consumidor final.
Para o setor de siderurgia, que consome cerca de 2,5 GWh por tonelada de aço produzido, o aumento de 8,6% pode representar um acréscimo de aproximadamente R$ 180 por tonelada, considerando o preço médio da energia elétrica em R$ 0,70/kWh. Esse valor pode reduzir margens de lucro em até 2 pontos percentuais, pressionando empresas como Gerdau, CSN e Usiminas a revisarem seus planos de expansão ou a buscarem fontes alternativas, como autoconsumo fotovoltaico e contratos de longo prazo com geradores independentes (IPP). A tendência de “energy‑as‑a‑service” já vem ganhando força, e a expectativa é que mais usinas criem hubs de energia interna para mitigar a volatilidade tarifária.
Do ponto de vista macroeconômico, o aumento da tarifa elétrica tem efeito multiplicador sobre o Produto Interno Bruto (PIB) industrial. Estudos do Instituto de Economia da UFRJ apontam que um aumento de 1% no custo da energia pode reduzir o PIB industrial em até 0,3%, sobretudo nos ramos de mineração e petroquímica, que apresentam elasticidade de demanda mais alta. A projeção da Aneel, portanto, sugere um possível retrocesso de 2,5% no crescimento do PIB industrial entre 2025 e 2026, caso não haja contrapartidas em forma de incentivos fiscais ou linhas de crédito específicas para modernização de equipamentos.
Especialistas do setor apontam que a resposta mais eficaz será o investimento em eficiência energética. A Associação Brasileira de Automação (ABRA) destaca que a digitalização de processos, o uso de sensores IoT e a implementação de sistemas de controle avançado podem reduzir o consumo elétrico em até 15% nas fábricas mais avançadas. Além disso, o Programa de Modernização da Indústria (PMI), que conta com recursos do BNDES, tem sido ampliado para incluir linhas de financiamento com juros reduzidos para projetos de eficiência energética, o que pode amortecer parte do impacto tarifário para empresas que adotarem essas tecnologias.
Em síntese, a previsão da Aneel de um aumento de 8,6% na conta de luz até 2026 representa um desafio imediato para a cadeia metalúrgica, siderúrgica e de mineração, ao mesmo tempo em que cria oportunidades para quem investir em fontes renováveis próprias e em tecnologias de gestão de energia. A capacidade do setor em absorver esses custos adicionais dependerá da rapidez com que as empresas adotarem soluções de autogeração, eficiência e digitalização, bem como da efetividade das políticas públicas de apoio ao investimento em energia limpa.
Fonte original
EExame