Barco brasileiro vai produzir o próprio hidrogênio verde a bordo

Um navio brasileiro, a MV Green Wave, foi anunciado como o primeiro da classe a produzir hidrogênio verde a bordo, utilizando eletrólise de água alimentada por energia solar e eólica instalada no convés. O projeto, desenvolvido em parceria com a Petrobras e a empresa de tecnologia de energia limpa HydroTech, visa demonstrar a viabilidade de hidrogênio como combustível marítimo e reduzir a dependência de diesel e gás natural liquefeito (GNL). A iniciativa representa um marco na transição energética do setor marítimo brasileiro, que movimenta mais de 50% das exportações de minério de ferro e commodities agrícolas.
O processo de eletrólise opera com 70% de eficiência, produzindo cerca de 30 toneladas de hidrogênio por dia. O navio conta com painéis fotovoltaicos de 1,2 MW e turbinas eólicas de 0,8 MW, que geram energia suficiente para a produção e para a propulsão do casco. A bateria de íons de lítio de 500 kWh armazena energia excedente, permitindo operação contínua mesmo em períodos de baixa incidência solar ou eólica. O hidrogênio pode ser comprimido a 350 bar para uso em células de combustível de 10 MW, suficientes para manter a velocidade média de 15 nós durante rotas de 3.000 milhas náuticas.
Do ponto de vista econômico, o custo de produção do hidrogênio verde a bordo foi estimado em R$ 1,80 por quilograma, comparado ao R$ 2,60 do GNL importado. O navio pode economizar cerca de 200.000 litros de diesel anualmente, equivalente a mais de 1,5 milhão de reais em custos de combustível. Além disso, a emissão de CO₂ seria reduzida em 90%, o que permitiria ao operador acessar créditos de carbono e cumprir com as metas de neutralidade da Agência Internacional de Energia (IEA). O investimento inicial de R$ 120 milhões pode ser amortizado em cinco anos, considerando economias de combustível e incentivos fiscais.
O mercado global de hidrogênio verde tem projeções de crescimento de 12% ao ano até 2035, impulsionado por políticas de descarbonização e pelo aumento da demanda por combustíveis marítimos sustentáveis. O Brasil, com 10.000 km de costa e acesso a recursos renováveis, pode se tornar um hub de produção de hidrogênio para a América Latina. A experiência do MV Green Wave pode abrir oportunidades de licenciamento de tecnologia para outras embarcações e estimular a cadeia de valor local, incluindo fabricantes de componentes de eletrólise e sistemas de armazenamento.
O governo brasileiro tem implementado incentivos fiscais para projetos de hidrogênio, como redução de IPI e isenção de ICMS para equipamentos de geração renovável. Além disso, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) está revisando regulamentos de emissão de gases de efeito estufa, estabelecendo limites mais rigorosos para a frota de navios de carga. A aprovação de normas técnicas para hidrogênio marítimo, em colaboração com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), será crucial para a adoção em larga escala.
Para o futuro, a MV Green Wave pretende expandir a capacidade de produção em 50% nos próximos três anos, incorporando células de combustível de 20 MW e sistemas de reciclagem de calor residual. Parcerias com universidades técnicas e centros de pesquisa, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), estão sendo consideradas para otimizar a eficiência energética. Contudo, desafios como a volatilidade dos preços das matérias-primas, a necessidade de infraestrutura de abastecimento de hidrogênio em portos e a maturidade regulatória ainda exigem atenção. A experiência brasileira, no entanto, posiciona o país como um pioneiro no uso de hidrogênio verde no transporte marítimo, oferecendo um modelo replicável para outras nações com potencial de energia renovável.
Fonte original
EExame
