Brasil e China devem transformar descarbonização em estratégia, diz ex-embaixador

O ex‑embaixador brasileiro na China, que recentemente concluiu seu mandato em Pequim, destacou que a descarbonização deve se tornar uma estratégia central nas relações bilaterais entre os dois países. Segundo ele, a iniciativa visa integrar esforços de redução de emissões com a consolidação de cadeias de valor mais sustentáveis, sobretudo nos setores industriais mais intensivos em carbono. O comentário reforça a urgência de alinhamento entre as metas de neutralidade de carbono do Brasil e da China, duas economias que desempenham papéis críticos na cadeia global de produção de aço, automóveis e energia.
Para os profissionais da metalmecânica, siderurgia, automação, energia, mineração e petróleo, a transição para processos mais limpos implica revisões significativas na engenharia de produção. A adoção de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), eletrificação de fornos de redução e uso de hidrogênio verde são apenas alguns exemplos de mudanças que já estão em fase de prototipagem em grandes empresas chinesas. No Brasil, a expansão de usinas de hidrogênio e a modernização de minas de ferro com sistemas de automação avançada são estratégias que podem reduzir a pegada de carbono em até 30% nos próximos cinco anos.
Em termos de dados, a China estabeleceu a meta de atingir a neutralidade de carbono até 2060, enquanto o Brasil busca o mesmo objetivo até 2050, com 30% de sua matriz energética já proveniente de fontes renováveis. Investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de descarbonização já ultrapassaram US$ 10 bilhões em 2023, com a China liderando o investimento em hidrogênio e a Europa e os EUA focando em CCS. O Brasil, por sua vez, tem atraído capital estrangeiro para projetos de energia solar e eólica em escala industrial, demonstrando um potencial de crescimento de 15% anual no setor de energia limpa.
Os impactos econômicos são múltiplos: a transição para processos mais limpos pode elevar os custos de produção em curto prazo, mas estimativas apontam que a longo prazo haverá redução de 5% nos custos operacionais por meio de eficiência energética. Além disso, a geração de empregos qualificados em engenharia ambiental, automação e manutenção de sistemas de captura de carbono pode compensar parcialmente a perda de postos em atividades tradicionais de combustão. A competitividade internacional das empresas brasileiras, especialmente na exportação de aço e de componentes automotivos, pode melhorar com a adoção de práticas sustentáveis, atendendo a exigências de mercados europeus e norte‑americanos que priorizam produtos com menor impacto ambiental.
No cenário de mercado, a parceria Brasil‑China pode acelerar a consolidação de cadeias de valor globais que integrem fornecedores de aço, equipamentos de automação e fontes de energia renovável. A expectativa de acordos comerciais focados em tecnologia limpa pode impulsionar o fluxo de capital e de know‑how, especialmente em áreas como baterias de alta capacidade, sistemas de monitoramento de emissões e inteligência artificial aplicada à otimização de processos industriais. O ambiente regulatório, com a implementação de incentivos fiscais para projetos de descarbonização e a criação de zonas de livre comércio específicas para energia limpa, pode reforçar ainda mais essa tendência.
Em síntese, a descarbonização emerge como um imperativo estratégico que pode remodelar a competitividade do setor industrial brasileiro. Embora desafios como a necessidade de requalificação da força de trabalho, a adaptação de infraestruturas e o acesso a financiamento de longo prazo permaneçam, a colaboração bilateral oferece uma oportunidade única para acelerar a inovação tecnológica e consolidar o Brasil como um player de referência em produção limpa no cenário global. A consolidação dessas iniciativas dependerá de políticas públicas coesas, investimento privado consistente e uma visão de futuro compartilhada entre governos e setores industriais.
Fonte original
EExame
