Brasil tem vantagem comparativa na busca por descarbonização, diz Alckmin

Na assembleia anual da International Air Transport Association (IATA), o vice‑presidente do Brasil, Rodrigo Alckmin, ressaltou que o país possui uma vantagem comparativa decisiva na corrida global pela descarbonização da aviação, sobretudo por meio do Sustainable Aviation Fuel (SAF). O discurso, feito diante de representantes de 300 companhias aéreas e autoridades regulatórias, apontou para a já consolidada cadeia de produção de biocombustíveis no território nacional, que inclui etanol de cana‑açúcar, biodiesel de soja e novas matérias‑primas emergentes, como óleos de microalgas e resíduos agrícolas. Alckmin enfatizou que a combinação de clima favorável, extensas áreas agrícolas e políticas de incentivo ao etanol cria um ambiente propício para que o Brasil assuma a liderança no desenvolvimento e na exportação de SAF, produto que pode reduzir em até 80% as emissões de CO₂ comparado ao querosene tradicional.
Para o setor industrial, a perspectiva de expansão do SAF representa uma oportunidade estratégica de diversificação da produção de biocombustíveis. Dados da Associação Brasileira de Bioenergia (ABIO) indicam que, em 2023, a produção de etanol atingiu 30 bilhões de litros, enquanto o biodiesel chegou a 7 bilhões de litros. Se 10% desse volume fosse convertido em SAF, o Brasil poderia gerar cerca de 3,7 bilhões de litros de combustível sustentável por ano, suficiente para abastecer aproximadamente 12% da frota civil nacional, segundo cálculos da IATA. Essa demanda adicional exigiria investimentos em tecnologias de hidroprocessamento e gasificação, áreas nas quais a indústria metalúrgica e de automação podem oferecer soluções de alta eficiência e baixo custo.
O impacto econômico da cadeia SAF pode ser significativo. O Ministério da Fazenda projeta que a produção de biocombustíveis avançados poderia gerar até R$ 45 bilhões em receitas fiscais anuais, além de criar cerca de 150 mil empregos diretos e indiretos nas regiões produtoras do Centro‑Sul e Nordeste. Para o setor siderúrgico, a demanda por catalisadores de hidrogenação e equipamentos de alta pressão pode impulsionar a compra de aço de alta resistência, estimulando pedidos de tubos, vasos de pressão e componentes de turbinas, o que deve refletir positivamente nos índices de produção da siderurgia brasileira, atualmente em recuperação após a crise de 2022.
Entretanto, a viabilidade do SAF depende de políticas públicas consistentes e de um marco regulatório claro. Alckmin solicitou ao Congresso a aprovação de incentivos fiscais específicos, como a redução do IPI para equipamentos de produção de SAF e a criação de um crédito de carbono para exportadores. A proposta inclui ainda a implementação de um preço mínimo garantido para o SAF, modelo que já funciona no Brasil para o etanol, garantindo margem de lucro para os produtores e reduzindo a volatilidade de preços no mercado internacional.
Do ponto de vista do mercado de energia, a expansão do SAF está alinhada com a tendência de descarbonização da matriz elétrica brasileira, que já conta com 63% de participação de fontes renováveis. A integração entre a geração de energia limpa e a produção de biocombustíveis pode criar sinergias, como o uso de eletricidade de fontes eólicas e solares para alimentar processos de eletrólise e síntese de hidrogênio verde, essencial ao hidroprocessamento do SAF. Analistas do setor estimam que, até 2030, o Brasil pode alcançar uma participação de 20% de SAF no consumo total de combustíveis de aviação, o que representaria um mercado de aproximadamente US$ 6 bilhões, atraindo investimentos estrangeiros e fortalecendo a cadeia de suprimentos nacional.
Para as empresas de automação e controle industrial, a demanda por sistemas de monitoramento em tempo real, inteligência artificial para otimização de processos e manutenção preditiva será crescente. A digitalização das plantas de SAF exigirá plataformas industriais compatíveis com normas internacionais de segurança e rastreabilidade, como a ISO 9001 e a IATA Environmental Assessment Standard. Esse cenário abre espaço para fornecedores brasileiros de software industrial, sensores avançados e serviços de integração, que podem capitalizar sobre o crescimento projetado de investimentos, estimados em cerca de US$ 2,5 bilhões até 2027.
Em suma, a declaração de Alckmin destaca não apenas a capacidade produtiva do Brasil, mas também a necessidade de um ecossistema de políticas, tecnologia e capital que converja para transformar o país em um hub global de SAF. A convergência entre a indústria metalúrgica, a siderurgia, a automação e o setor de energia renovável cria um panorama promissor, onde a descarbonização da aviação pode gerar ganhos econômicos substanciais, fomentar a inovação tecnológica e posicionar o Brasil como referência internacional em combustíveis sustentáveis.
Fonte original
IInfoMoney