Empresas brasileiras da bolsa podem sentir impacto de novo "tarifaço" dos EUA
Um novo “tarifaço” anunciado pelo governo dos Estados Unidos tem potencial de reverberar profundamente nos mercados de capitais, especialmente para empresas brasileiras listadas na B3 que dependem de exportação ou de cadeias de suprimentos integradas com a América do Norte. O aumento das tarifas sobre produtos siderúrgicos, de maquinário e componentes eletrônicos, previsto para entrar em vigor no próximo trimestre, segue a política protecionista adotada pela administração atual, que busca compensar o déficit comercial americano. Para o setor industrial brasileiro, onde a metalmecânica, siderurgia e automação representam mais de 15% das exportações totais, a medida pode gerar um aumento de custos de até 12% nos preços finais, impactando a competitividade das empresas no mercado internacional.
Entre as companhias que podem sentir o efeito imediato estão a Gerdau (GGBR4), responsável por cerca de 30% das exportações de aço longo do país, e a Usiminas (USIM5), cujas vendas de aço plano para os EUA já respondem por 18% de sua receita externa. A elevação das tarifas sobre chapas de aço e tubos pode reduzir as margens operacionais dessas empresas em até 3 pontos percentuais, segundo projeções de analistas da XP Investimentos. Além disso, o grupo CSN (CSNA3), que tem participação significativa na produção de minérios de ferro exportados para siderúrgicas norte‑americanas, pode ver a demanda cair, pressionando o preço do minério e resultando em um ajuste de cerca de R$ 0,45 por tonelada no preço médio de venda.
No segmento de automação e equipamentos industriais, a WEG (WEGE3) e a Siemens Brasil (empresa controlada pela multinacional alemã, mas com ações negociadas em fundos locais) podem enfrentar um encarecimento dos componentes eletrônicos importados dos EUA, como semicondutores e controladores de potência. O aumento de 8% a 15% nas tarifas sobre esses itens eleva o custo de produção de sistemas de automação, o que pode ser repassado parcialmente ao cliente final, reduzindo a taxa de crescimento dos contratos de projetos de energia e mineração. A estimativa do Banco Central indica que o impacto agregado sobre o PIB industrial pode chegar a R$ 4,2 bilhões em 2024, equivalente a 0,3% do total.
Para o mercado de capitais, a expectativa de redução de lucros e a volatilidade cambial – já pressionada pela alta do dólar frente ao real – devem refletir-se nos preços das ações. As projeções de consenso da Bloomberg apontam uma queda média de 5% nas avaliações das empresas citadas, com a Gerdau e a Usiminas podendo registrar desvalorizações de até 7% nas próximas semanas. Investidores institucionais já sinalizam a revisão de posições, com fundos de pensão e private equity reduzindo a exposição ao setor siderúrgico em até 15%, buscando realocar recursos em segmentos menos vulneráveis ao comércio internacional, como o de energia renovável.
Entretanto, há oportunidades de mitigação. O governo brasileiro tem sinalizado a possibilidade de acordos bilaterais de compensação tarifária, bem como a ampliação de linhas de crédito do BNDES com juros reduzidos para modernização de processos produtivos. Empresas que investirem em tecnologias de redução de custo, como a adoção de fornos elétricos de baixa emissão ou a integração de sistemas de IA para otimização de produção, podem preservar margens e até ganhar competitividade frente a concorrentes estrangeiros que ainda dependem de insumos mais caros.
Analistas de mercado destacam que o cenário de “tarifaço” pode se prolongar, dependendo das negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Enquanto isso, a estratégia recomendada para gestores de portfólio é diversificar a exposição setorial, reforçar a análise de risco de cadeia de suprimentos e monitorar de perto os indicadores de comércio exterior, como o volume de exportação de aço e a balança comercial de bens de capital. A resposta do setor industrial brasileiro a esse novo ciclo de protecionismo será decisiva para determinar se o impacto será apenas temporário ou se gerará uma reconfiguração estrutural nas relações comerciais com os Estados Unidos.
Fonte original
EExame