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Le Coze destaca fatores humanos e organizacionais na segurança industrial

Le Coze destaca fatores humanos e organizacionais na segurança industrial

O pesquisador francês Le Coze, reconhecido internacionalmente pelas contribuições em segurança do trabalho, destacou nesta semana, em entrevista concedida ao Fundacentro, a centralidade dos fatores humanos e organizacionais nas estratégias de prevenção de acidentes nas indústrias de metalmecânica, siderurgia, energia e mineração. Em seu livro recém‑traduzido para o português, “Fatores Humanos e Organizacionais na Segurança”, Coze argumenta que a eficácia das normas técnicas e dos equipamentos de proteção individual (EPI) depende, em grande medida, da cultura corporativa, da comunicação interna e da capacidade de liderança para gerir riscos. Para executivos do setor, a mensagem reforça a necessidade de integrar programas de segurança à estratégia de negócios, indo além da simples conformidade regulatória.

Coze aponta que a globalização tem aprofundado a complexidade das cadeias de suprimentos, exigindo que empresas brasileiras harmonizem padrões de segurança com exigências de parceiros estrangeiros. Dados da Associação Brasileira de Metalurgia, Mecânica e Mineração (Abramm) indicam que 42 % das empresas exportadoras relataram dificuldades em alinhar procedimentos de segurança com requisitos de clientes europeus e norte‑americanos, o que pode gerar barreiras comerciais e perdas de contratos. Assim, a adoção de sistemas de gestão de segurança baseados em princípios de comportamento organizacional pode ser um diferencial competitivo, facilitando a certificação ISO 45001 e a aceitação em mercados internacionais.

A burocratização dos processos regulatórios também foi analisada por Coze, que alerta para o risco de que normas excessivamente prescritivas criem “ciclos de compliance” onde o foco se volta apenas para o cumprimento de check‑lists, sem promover mudanças efetivas no comportamento dos trabalhadores. Um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que, entre 2019 e 2023, o número de autuações por descumprimento de normas de segurança nas indústrias de transformação subiu 15 %, enquanto a taxa de acidentes com afastamento diminuiu apenas 3 %. Essa disparidade indica que a simples imposição de regras não tem sido suficiente para reduzir incidentes graves.

Em relação às relações de poder dentro das organizações, Coze enfatiza que a tomada de decisão em segurança costuma estar concentrada em níveis hierárquicos superiores, afastando os operadores das linhas de frente das discussões sobre risco. Pesquisas conduzidas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelam que 68 % dos trabalhadores de fábricas de siderurgia consideram que suas sugestões de melhoria são pouco ou nada consideradas pelos gestores. Essa desconexão pode gerar resistência à implementação de novas práticas e, consequentemente, aumentar a vulnerabilidade a acidentes.

Para o cenário econômico, a adoção de políticas de segurança mais integradas pode gerar retorno financeiro significativo. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), cada R$ 1 investido em programas de prevenção de acidentes pode gerar até R$ 4,5 de economia, considerando redução de custos com afastamentos, indenizações e perda de produtividade. No último trimestre, empresas que implementaram sistemas de gestão de segurança baseados em fatores humanos registraram queda média de 12 % nos índices de sinistralidade, o que se traduz em ganhos de competitividade e maior atratividade para investidores.

O panorama futuro aponta para a consolidação de abordagens sistêmicas, nas quais a segurança é tratada como um elemento estratégico de governança corporativa. Coze sugere que, nos próximos cinco a dez anos, a integração de tecnologias de monitoramento em tempo real, como sensores vestíveis e análise de dados comportamentais, será potencializada por uma cultura organizacional que valoriza a participação ativa dos trabalhadores. Para o Brasil, isso implica em investimentos em capacitação, revisão de políticas internas e fortalecimento de diálogos multissetoriais, a fim de transformar a segurança de um requisito legal em um motor de inovação e crescimento sustentado.

Fonte original

FFundacentro