Le Coze destaca fatores humanos e organizacionais na segurança industrial

O pesquisador francês Le Coze, especialista em segurança industrial, lançou recentemente no Brasil sua obra “Fatores Humanos e Organizacionais na Segurança”, trazendo à tona discussões sobre como a globalização, a burocratização e as relações de poder influenciam as práticas de integridade nas cadeias produtivas. Para executivos da metalmecânica, siderurgia e mineração, a obra se destaca ao revelar que a simples implantação de normas técnicas não garante a mitigação de riscos; é preciso considerar a cultura organizacional, a formação de lideranças e a dinâmica de poder entre fornecedores, clientes e reguladores. O autor argumenta que, em ambientes altamente automatizados, a vulnerabilidade humana persiste, sobretudo na tomada de decisão em momentos críticos, o que exige investimentos não só em tecnologia, mas também em treinamento comportamental e em sistemas de governança que equilibrem autoridade e responsabilidade.
Le Coze aponta que a globalização intensifica a interdependência entre unidades de produção espalhadas por diferentes continentes, ampliando a complexidade dos sistemas de gestão de segurança. Segundo dados do IBGE, o setor industrial brasileiro movimentou cerca de R$ 1,3 trilhão em 2023, com 30% desse valor concentrado em exportações de produtos siderúrgicos e de máquinas-ferramenta. Essa exposição ao mercado externo eleva a necessidade de aderir a padrões internacionais, como a ISO 45001, mas também traz o risco de “importar” práticas de gestão de risco que não se alinham à realidade brasileira de mão de obra diversificada e de cadeias de suprimentos fragmentadas. O autor alerta que a imposição de normas estrangeiras sem adaptação local pode gerar burocratização excessiva, aumentando custos operacionais sem melhorar efetivamente a segurança.
Um dos pontos centrais da análise de Le Coze é a burocratização como fonte de ineficiência. Estudos recentes da Fundação Getúlio Vargas indicam que empresas do setor de mineração que adotaram sistemas de gestão de segurança excessivamente complexos registraram um aumento médio de 12% nos custos administrativos nos últimos dois anos, sem redução proporcional nos índices de acidentes graves. O pesquisador sugere que a simplificação de processos, através de plataformas digitais integradas e de indicadores de desempenho claros, pode reduzir o tempo de resposta frente a incidentes, ao mesmo tempo em que liberta recursos para investimentos em ergonomia, automação segura e programas de bem‑estar dos colaboradores.
As relações de poder, segundo Le Coze, são outro elemento determinante para a eficácia das políticas de segurança. Em empresas de grande porte, como as siderúrgicas integradas, a decisão sobre alocação de recursos para projetos de segurança costuma ficar concentrada nas áreas de finanças e produção, áreas frequentemente em conflito por metas de produtividade versus custos de prevenção. A obra destaca casos em que a participação ativa de sindicatos e de comissões internas de prevenção de acidentes (CIPA) resultou em negociações mais equilibradas, reduzindo a taxa de frequência de acidentes em até 18% em linhas de montagem automatizadas. Essa dinâmica evidencia que a inclusão de representantes dos trabalhadores nas decisões estratégicas pode gerar ganhos econômicos mensuráveis, ao evitar paralisações e multas regulatórias.
Do ponto de vista econômico, o autor enfatiza que investimentos em fatores humanos e organizacionais têm retorno financeiro tangível. A análise de risco baseada em modelos probabilísticos, aliados a programas de treinamento contínuo, pode reduzir o custo médio por acidente em cerca de US$ 250 mil, segundo a International Labor Organization (ILO). Para o Brasil, isso se traduz em potencial economia de R$ 4,5 bilhões anuais, caso as empresas do setor metalúrgico adotem práticas alinhadas às recomendações de Le Coze. Além disso, a melhoria da reputação corporativa perante investidores ESG (Environmental, Social and Governance) abre portas para financiamentos com taxas de juros mais baixas, favorecendo a expansão de projetos de automação e de energia limpa.
O futuro do setor, segundo a perspectiva do pesquisador, está na integração de tecnologias de monitoramento em tempo real com estratégias de gestão de pessoas que valorizem a comunicação transparente e a aprendizagem organizacional. Plataformas de análise preditiva, combinadas com programas de “near‑miss reporting” incentivados por políticas de não‑punição, podem transformar incidentes quase ocorridos em oportunidades de melhoria contínua. Essa abordagem, alinhada às tendências de Indústria 4.0, promete não apenas reduzir acidentes, mas também otimizar a eficiência operacional, contribuindo para a competitividade global das empresas brasileiras.
Fonte original
FFundacentro