Lula discute aumento do etanol na gasolina para conter alta dos combustíveis

O governo federal, em reunião com representantes do Ministério de Minas e Energia e da Petrobras, analisou a possibilidade de elevar a participação do etanol anidro na gasolina para 32% – aumento significativo em relação ao patamar atual de 27% – como medida de contenção da alta dos combustíveis. A proposta surge em meio ao agravamento da crise no Oriente Médio, que tem impulsionado os preços internacionais do petróleo e, consequentemente, encarecido a importação de gasolina refinada, um componente ainda essencial para o abastecimento nacional, sobretudo nas regiões Sudeste e Sul, onde a produção local de etanol é mais robusta.
Para o setor industrial, a mudança na composição da gasolina tem implicações diretas nos custos operacionais de transportadoras, mineradoras e fábricas que dependem de frotas rodoviárias. O aumento da fração de etanol reduz a dependência de importações de petróleo bruto, o que pode amortecer a volatilidade cambial e a pressão inflacionária sobre o preço do diesel, que ainda representa o principal combustível para veículos de carga pesada. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a substituição de 5% de gasolina por etanol pode gerar uma economia média de R$ 0,12 por litro, equivalente a cerca de R$ 1,5 bilhão ao ano em gastos de frotas corporativas.
Do ponto de vista macroeconômico, a medida também visa proteger a balança comercial. Em 2023, as importações de gasolina totalizaram US$ 4,2 bilhões, um aumento de 18% em relação ao ano anterior, reflexo da escassez de refinarias operacionais no Oriente Médio e da alta dos preços do Brent, que ultrapassou US$ 95 o barril em maio. Ao elevar a mistura de etanol, o governo pretende reduzir a necessidade de importação em até 7%, conforme projeções preliminares do Ministério da Fazenda, o que poderia representar uma diminuição de US$ 300 milhões nas contas externas, aliviando a pressão sobre o déficit da conta corrente.
Para os produtores de etanol, a iniciativa abre oportunidades de expansão da capacidade instalada. A Canasia, maior cooperativa de cana-de-açúcar do país, informou que já possui projetos de ampliação que poderiam elevar a produção de etanol anidro de 30 milhões para 38 milhões de litros por dia até 2028. O aumento da quota de mistura pode, portanto, acelerar investimentos em modernização de usinas, sobretudo na adoção de tecnologias de segunda geração, que aumentam o rendimento energético e reduzem a pegada de carbono – aspecto relevante para as metas de descarbonização da indústria pesada, como siderúrgicas e usinas de alumínio.
Entretanto, a proposta enfrenta resistência de setores que alertam para possíveis impactos negativos na performance dos motores. Estudos da Associação Brasileira dos Fabricantes de Automóveis (ABFA) apontam que o aumento do teor de etanol pode exigir ajustes nos sistemas de injeção e nos parâmetros de controle de emissões, sobretudo em veículos mais antigos. Além disso, há preocupação quanto à disponibilidade de etanol em períodos de safra baixa, o que poderia gerar desequilíbrios regionais e pressões sobre o preço do álcool combustível, tradicionalmente mais volátil que a gasolina.
Analistas do mercado de energia, como a BloombergNEF, projetam que a política de aumento da mistura de etanol pode contribuir para estabilizar o preço médio dos combustíveis em torno de R$ 6,20 por litro nos próximos 12 meses, mitigando o impacto da alta do petróleo. Contudo, ressaltam que a efetividade da medida dependerá da rapidez na aprovação regulatória, da capacidade de armazenamento logístico do etanol e da resposta das refinarias em adaptar suas linhas de produção. A expectativa é que o governo apresente um decreto até o final do trimestre, permitindo que a indústria se ajuste e que os consumidores comecem a sentir os efeitos já no próximo semestre.
Fonte original
IInfoMoney