RBSO lança chamada pública para artigos sobre trabalho decente e precarização

A chamada pública lançada pela Rede Brasileira de Segurança Ocupacional (RBSO) – em parceria com o Fundacentro – para submissão de artigos sobre trabalho decente e precarização chega num momento em que a indústria brasileira enfrenta pressões simultâneas de competitividade internacional, transição digital e crescente demanda por normas de saúde e segurança no trabalho (SST). O edital busca analisar as transformações estruturais que vêm ocorrendo nos últimos dez anos, como a ampliação de terceirizações, o uso intensivo de plataformas digitais e a flexibilização de contratos, fenômenos que afetam diretamente setores estratégicos como metalmecânica, siderurgia, energia e mineração. Para profissionais de engenharia de produção, gestores de segurança e diretoria de recursos humanos, compreender essas dinâmicas é essencial para adequar políticas internas e evitar passivos trabalhistas que podem comprometer a rentabilidade das operações.
Os impactos econômicos da precarização são evidentes nos indicadores de produtividade e custos operacionais. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontam que, entre 2020 e 2023, a taxa de acidentes de trabalho nas indústrias de transformação cresceu 8,4%, enquanto o índice de afastamentos remunerados subiu 12,1%, representando perda estimada de R$ 5,6 bilhões em salários e encargos sociais. Além disso, empresas que adotam práticas de trabalho decente tendem a registrar menores índices de rotatividade – cerca de 15% a menos – e maior engajamento dos colaboradores, refletindo em ganhos de eficiência de até 4,3% nos processos de produção, conforme estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).
No cenário de automação e Indústria 4.0, a precarização assume contornos tecnológicos. A adoção de sistemas ciber-físicos e de manutenção preditiva tem reduzido a necessidade de mão‑de‑obra direta, mas também gerado novos tipos de contratos temporários e de prestação de serviços especializados. Essa tendência eleva o risco de “precarização digital”, em que trabalhadores são submetidos a jornadas flexíveis sem garantias de segurança jurídica ou de saúde ocupacional adequada. A chamada da RBSO enfatiza a necessidade de investigar como esses modelos afetam a SST, especialmente em ambientes de alta periculosidade como usinas siderúrgicas e minas de minério de ferro.
Para o setor de energia, que tem investido pesado em renováveis e em projetos de transição energética, a precarização pode comprometer metas de sustentabilidade. Estudos do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) mostram que projetos com práticas de trabalho decente têm 22% mais chances de cumprir cronogramas e 18% menos probabilidade de sofrer multas ambientais, já que a segurança no trabalho está intimamente ligada ao cumprimento de normas ambientais. Assim, a pesquisa solicitada pela RBSO pode gerar insights valiosos para alinhar a agenda de ESG (Environmental, Social and Governance) com a realidade operacional das empresas.
Do ponto de vista regulatório, a iniciativa da RBSO chega em um contexto de intensificação da fiscalização do Ministério da Economia e da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. As recentes alterações na Lei nº 13.467/2017 (Reforma Trabalhista) e a proposta de novo marco regulatório da terceirização aumentam a exposição das indústrias a litígios e a custos de adequação. Artigos que abordem estratégias de compliance em SST, integração de normas ISO 45001 e a implementação de programas de prevenção de acidentes podem orientar gestores a mitigar riscos e otimizar investimentos em segurança.
Em termos de perspectivas de mercado, a demanda por soluções de segurança ocupacional está projetada para crescer 7,2% ao ano até 2030, impulsionada tanto por requisitos regulatórios quanto por pressões de investidores institucionais que incorporam métricas de bem‑estar dos trabalhadores em suas avaliações de risco. Empresas que adotarem modelos de trabalho decente e investirem em tecnologias de monitoramento de saúde ocupacional – como wearables e sistemas de análise de dados em tempo real – deverão ganhar vantagem competitiva, reduzindo custos de seguros e melhorando sua reputação no mercado global.
A chamada pública da RBSO, ao fomentar a produção de conhecimento acadêmico e prático sobre trabalho decente e precarização, oferece à indústria brasileira uma oportunidade de reavaliar suas práticas de SST e de alinhar-se às exigências de um mercado cada vez mais regulado e consciente. Os resultados esperados poderão influenciar políticas públicas, orientar investimentos em capital humano e definir novos padrões de governança que conciliem produtividade, segurança e responsabilidade social.
Fonte original
FFundacentro