Tarifaço dos EUA pode impactar 1/3 das exportações brasileiras com tarifas de até 37,5%

A recente decisão da Administração de Tarifas Comerciais dos Estados Unidos (U.S. Trade Representative – USTR) de aplicar tarifas adicionais sobre produtos industriais brasileiros pode comprometer até um terço das exportações nacionais, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O levantamento da entidade indica que as novas alíquotas, que chegam a 37,5% em alguns itens, atingem setores estratégicos como metalmecânica, siderurgia, automação, energia, mineração e petróleo, áreas que representam mais de R$ 150 bilhões em receitas anuais e são fundamentais para a balança comercial do país.
Para a cadeia metalmecânica, que inclui a produção de máquinas-ferramenta, componentes automotivos e equipamentos de construção, a medida implica um aumento de custos que pode reduzir a competitividade frente a fornecedores de países como México e Canadá, beneficiados pelos acordos da USMCA. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Máquinas (ANFAME) mostram que as exportações brasileiras desse segmento para os EUA somaram US$ 3,2 bilhões em 2023, crescimento de 6% em relação ao ano anterior. Com as tarifas elevadas, estimativas conservadoras apontam uma queda de 12% a 18% nas vendas, o que pode representar perdas de até US$ 600 milhões em receita.
No segmento siderúrgico, as tarifas afetam principalmente os produtos planos e longos de alta resistência, amplamente utilizados nas indústrias automotiva e de construção civil dos EUA. A siderúrgica Gerdau, maior exportadora brasileira, já sinalizou a revisão de contratos e a busca por mercados alternativos na América Latina e Ásia. Segundo a empresa, as tarifas de 30% a 37,5% podem reduzir o volume exportado para os EUA em cerca de 20%, o que representaria uma diminuição de US$ 500 milhões nas receitas de 2024, pressionando ainda mais a já delicada recuperação do setor após a crise da pandemia.
Os impactos econômicos vão além das perdas diretas de exportação. A CNI estima que a cadeia produtiva associada – fornecedores de matéria-prima, serviços logísticos e financiamento – pode sofrer um efeito cascata, reduzindo a geração de empregos em torno de 45 mil postos de trabalho, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, onde se concentram os polos industriais. O aumento de custos também pode elevar o preço final dos bens de consumo e de capital no mercado interno, contribuindo para a inflação de custos, que já apresenta pressão nas faixas de 0,9% a 1,2% ao mês, segundo o IBGE.
Em resposta, a Confederação Nacional da Indústria propôs a abertura de negociações bilaterais com o governo dos EUA, além de solicitar a intervenção do Ministério das Relações Exteriores e da Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) para buscar mecanismos de mitigação, como a concessão de licenças de isenção temporária ou a revisão de classificações tarifárias. O Ministério da Economia ainda não se manifestou oficialmente, mas fontes internas indicam que o assunto será incluído na agenda de discussões do próximo encontro do G20, onde o Brasil pretende defender a manutenção de um sistema comercial multilateral baseado em regras.
Para os investidores, o cenário traz incertezas que podem retardar novos projetos de expansão e modernização. O índice de confiança do setor industrial (IBC) registrou queda de 3,4 pontos em junho, refletindo o receio de que as tarifas elevem o custo de capital e reduzam a atratividade de investimentos em tecnologia de automação e digitalização, áreas que demandam investimentos médios de US$ 200 milhões por empresa para upgrade de linhas de produção. Analistas do mercado de capitais recomendam cautela, mas apontam que empresas com maior presença em mercados diversificados, como a Vale e a Petrobras, podem absorver melhor o choque, enquanto as médias e pequenas indústrias precisarão de apoio governamental ou de alianças estratégicas para manter a competitividade.
Olhar para o futuro, porém, ainda permite identificar oportunidades. A crescente demanda por energia limpa e tecnologias de captura de carbono nos EUA pode abrir nichos para fornecedores brasileiros de equipamentos de automação e sistemas de energia renovável, que ainda não foram totalmente impactados pelas tarifas. Além disso, a busca de parceiros europeus e asiáticos por fontes alternativas de insumos industriais pode acelerar a reorientação das exportações brasileiras para mercados menos sujeitos a barreiras tarifárias. Em síntese, o “tarifão” dos EUA representa um forte desafio imediato, mas também um catalisador para a diversificação de destinos e a aceleração da inovação no setor industrial brasileiro.
Fonte original
EExame